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Escola renomada do Rio resiste na "faixa de Gaza"

5/8/2006 

SÉRGIO RANGEL
da Folha de S.Paulo, no Rio

Tiroteios constantes, explosões de granadas, fachada metralhada, plano de recolher informal criado pelos próprios funcionários e quase todos estressados. Este é o clima tenso vivido diariamente por estudantes e funcionários, parte deles estrangeiros, da principal instituição de ensino de saúde pública da América do Sul.

Localizada na avenida Leopoldo Bulhões, conhecida pelos cariocas como "faixa de Gaza" por causa do alto índice de violência, a Ensp (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca) é alvo, quase que diário, de tiros. Reformada há cerca de dois anos, a fachada da escola hoje está crivada de balas de grosso calibre. Na quarta, o vidro da janela da biblioteca foi quebrado por um projetil. Na quinta, mais de 30 tiros foram contados pela reportagem da Folha na fachada da escola, que fica em frente à favela de Manguinhos, na zona norte.

"Ouvimos quase que diariamente tiros e histórias tristes das pessoas com medo", disse o angolano Miguel dos Santos Oliveira, 40, que faz doutorado em saúde pública. A Ensp recebe cerca de 120 alunos, sendo parte de países latino-americanos e africanos. "Nasci num país que viveu anos em guerra, mas não tinha presenciado violência semelhante", disse Oliveira. Criada em 1954, a Ensp tem mais de 150 doutores no seu corpo docente. A escola forma gestores públicos em saúde e conta com 27 linhas de pesquisa.

A avenida Leopoldo Bulhões é palco de sucessivos tiroteios e interrupções de trânsito organizadas por traficantes. A via liga Benfica e Bonsucesso (zona norte).

Com cerca de 2 km de extensão, a "faixa de Gaza" é cercada por três favelas (Manguinhos, Mandela e Parque Arará) e fica perto de outras áreas perigosas, como o complexo de favelas da Maré.

"O trauma é grande. No ano passado, quase mergulhei numa síndrome do pânico depois de ficar cerca de meia hora dentro de um prédio durante um tiroteio", disse uma funcionária da escola, que pediu para não ser identificada. Ela afirmou que o conflito teve início quando policiais tentaram acabar com um "arrastão" feito por traficantes no início da noite na avenida, em outubro. Com o início do tiroteio, os traficantes pularam o muro da escola e lançaram granadas de dentro da instituição em direção aos policiais.

Por causa da violência na região, várias empresas deixaram a avenida. A última a sair foi a Embratel, há cerca de um ano.

A biblioteca é um dos lugares com mais marcas de balas. Um computador e alguns livros já foram atingidos. Um estudante chegou a encontrar uma cápsula no chão. O prédio já teve blindagem nas janelas, mas quase todas foram retiradas na última reforma.

Um "estica" (boca-de-fumo móvel) funciona distante cerca de dez metros do portão da Ensp. O delegado Jader Amaral, responsável pelo bairro, disse desconhecer o "estica". Ele admitiu que a escola funciona numa área de risco, mas não tem como evitar os tiroteios. "A repressão tem que existir. Não temos como deixar de combater o tráfico ou os roubos. Essa é a realidade", disse.

Outro lado

O diretor da Ensp (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca), Antonio Ivo de Carvalho, não quis comentar sobre a violência dentro da instituição.

Desde as 11h da última sexta-feira, a Folha entrou em contato com a assessoria de imprensa da escola para entrevistá-lo. A assessoria alegou que o diretor estava em algum compromisso e dificilmente poderia entrar em contato com a reportagem.

Embora tenha evitado comentar a situação publicamente, Carvalho enviou na sexta um comunicado aos funcionários e estudantes determinando que deixem a escola diariamente até as 17h. Ele convocou ainda uma reunião para hoje com a comunidade acadêmica da escola para discutir os últimos fatos na vizinhança.

Na quarta, Bruno Paulo Silva de Oliveira, o Bolinho (que seria gerente do tráfico), foi morto em confronto com policias na favela de Manguinhos, em frente à Ensp. No dia seguinte, um tiroteio levou pânico a funcionários e estudantes e interrompeu a circulação dos trens por cerca de uma hora na estação de Manguinhos.

Para tentar se aproximar da comunidade, a escola faz obras sociais no local, que vão de atividades de lazer à capacitação de moradores para o mercado de trabalho.

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