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Valor de bolsa esvazia supletivo no Sudeste

5/7/2006 

DANIELA TÓFOLI
da Folha de S.Paulo

Uma bolsa de R$ 100 por mês para jovens voltarem a estudar está causando realidades distintas no país. Enquanto no Sul e no Sudeste apenas metade das vagas do ProJovem --programa do governo federal para educação de jovens e adultos que se tornou uma das bandeiras da gestão Lula-- foram preenchidas, no Nordeste a corrida pelo programa é tanta que há quase o dobro dos inscritos para as vagas disponíveis.

Criado pelo governo do PT em 2005, o ProJovem paga R$ 100 para quem tem entre 18 e 24 anos e estudou até a 4ª série terminar o ensino fundamental. Os candidatos não podem ter carteira assinada e precisam assistir a 75% das aulas e entregar 75% dos trabalhos para ganhar a bolsa.

Como muitos jovens fazem "bicos" ou trabalham no mercado informal, precisam abrir mão deles ou adequar horários para conseguir ir ao curso. No Sul e no Sudeste, onde o custo de vida é maior, muitos acham que a troca não vale à pena e não fazem a inscrição, esvaziando o programa.

As inscrições estavam previstas para acabar ontem. Até o último balanço parcial, de 26 de abril, o Nordeste já contava com 44.432 inscritos para 24.460 vagas.

Todas as capitais, com exceção de Recife que não está nesta fase do ProJovem, têm inscrições a mais. O contrário do que acontece no Sul e no Sudeste. Das 60.449 vagas disponíveis, apenas 31.990 tinham sido preenchidas. Exceto Belo Horizonte, onde a procura está maior do que a oferta, as capitais estão com baixa demanda. Em São Paulo, por exemplo, até o dia 26 foram feitas 10.401 inscrições para 22.908 vagas.

A principal explicação para a diferença no número de participantes, segundo especialistas, está no valor da bolsa. No Nordeste, R$ 100 valem mais do que no Sudeste. Enquanto em Salvador, o quilo da carne custa R$ 7,89, o da farinha, R$ 1,25, e a passagem de ônibus, R$ 1,70 (segundo o Dieese); em São Paulo os preços respectivos são R$ 8,35, R$ 1,55 e R$ 2,00.

"O custo de vida no Sul e Sudeste é muito maior e a bolsa se torna insuficiente", afirma Vera Masagão, coordenadora de programas da ONG Ação Educativa. "Ela acaba influenciando no número de inscritos", avalia.
Coordenadora do Núcleo de Trabalhos Comunitários da PUC-SP, Maria Stela Santos Graciani concorda que os R$ 100 são mais importantes no Norte e Nordeste.

Maria José Feres, coordenadora do programa, conta que, para decidir o número de vagas em cada capital, o governo levou em conta dados do IBGE. "A porcentagem de vagas foi igual para todos."

Até agora, fazem parte do projeto as capitais e o Distrito Federal. Onde houver mais procura do que vaga, serão feitos sorteios.

Feres também explica que até o fim do ano, quando o programa passará por uma análise, não será possível remanejar vagas de um Estado para outro. "R$ 100 no Nordeste podem até ser um estímulo para deixar um bico, o que não ocorre no Sudeste", diz Paulo Renato Souza, ex-ministro da Educação e consultor na área.

Além do valor da bolsa, há mais duas explicações para a diferença de procura entre as regiões. Paulo Renato lembra que nas capitais do Sul e Sudeste há mais programas destinados à formação de jovens e adultos.

Já o pesquisador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp, Rodrigo Pereyra de Sousa Coelho, afirma que no Norte e Nordeste um diploma de ensino fundamental rende mais oportunidades de emprego do que no Sul e no Sudeste.

O programa está no seu segundo ano de inscrições e é aplicado em parceria com as prefeituras, que entram com a infra-estrutura. O governo federal paga professores, material e laboratórios de informática. Neste ano, o orçamento é de R$ 363,5 milhões.

As aulas de quem se inscreveu no ProJovem em 2005 em São Paulo só começaram na terça-feira passada. A dificuldade foi justamente conseguir montar turmas na cidade. Com 17.824 inscritos, apenas 7.150 se matricularam. "Foi difícil mobilizar os jovens porque muitos estão no trabalho informal e precisam se organizar para voltar à escola", diz o secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro."

A turma tem 973 alunos em São Miguel Paulista, na zona leste. Até o fim de maio, segundo o secretário, mais 19 turmas estarão em aula.

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